RESPIRAÇÃO #15 ANOS OPAVIVARÁ!

BOCA A BOCA

Projeto Respiração
24ª edição
14 de setembro a 17 de novembro de 2019

OPAVIVARÁ!

Percebo OPAVIVARÁ! como tendo herdado a linha de força que denomino ruptura pós-neoconcreta – o momento em que Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica criam um desvio do neoconcretismo e radicalizam a relação arte/vida. Os três, ao introduzirem o conceito de artista como propositor e de espectador como receptor ativo, como parte fundamental do processo de realização da obra, saem do campo da pureza da percepção para o campo da ação e enfatizam o aspecto concreto (daí concretismo e não construtivismo) da realidade. A obra só é efetivada, de fato, quando se dá o envolvimento do receptor ativo.
Em OPA essa questão é vivenciada de maneira intensa e de lucidez contagiante (posso me permitir afirmar que é a sua principal característica), criando tensões e fricções nos circuitos da vida cotidiana das pessoas e das cidades, pondo em questão os diferentes segmentos que fazem parte da dinâmica dos espaços urbanos da contemporaneidade. O coletivo exercita uma prática de diluição da fronteira entre arte e vida, levando para o espaço urbano práticas da vida doméstica e invertendo a lógica da segregação espacial e social das metrópoles, incluindo-se nisso também os espaços ditos públicos dos museus e das instituições culturais. OPAVIVARÁ! desconstrói o conceito tradicional de espaço urbano, explicitando que o desmonte das relações espaciais tradicionais já existe como estratégia de sobrevivência nas grandes cidades. As pessoas têm de recorrer a vários expedientes de sobrevivência, provocados por motivos como a falta de emprego, problemas de imigração, de transporte, de moradia, etc. ou mesmo por práticas positivas da vida em conjunto como ocorre nas praias cariocas, no Carnaval, nas feiras ou nos grandes eventos musicais ou nos museus-catedrais, que se tornaram destinos de peregrinação da indústria do turismo. Enfim, lida com essa energia do estar junto desde o processo de conceituação da obra até a sua consecução final que precisa ser experimentada e vivida por aqueles que entram em contato com ela.
Puxando as linhas de forças genealógicas pelas quais atravessa, podemos dizer que em algumas obras como os postais Eu amo camelô (Rio de Janeiro) ou a reedição do trabalho em Barcelona Eu amo manteros remetem a momentos Lygia Pape, numa forte relação com o espaço urbano (lembremos os espaços imantados de Pape):
Fazer esse postal é mexer com essa imagem que você quer mostrar de sua cidade. É uma operação de evocar as paisagens icônicas do Rio de Janeiro, pelos trabalhos e pelos vendedores ambulantes que estão também construindo a imagem dessa cidade.
Ou
O que observamos nas cidades globais é que estamos sempre nos espaços públicos e eles trazem essas tensões e essas tensões ficam expostas. E, de um modo geral, elas sofrem muito essa injeção de capital necessário, de uma indústria de produção e consumo onde a cidade tem que ser uma grande vitrine, um grande espetáculo desse sistema e esse sistema vem sempre com um pacote de normatividade de fascismo, racismo, xenofobia, machismo e isso se tensiona muito no espaço público. Há um lado imperativo desse sistema que vai se impondo, mas percebemos também que há uma resposta que tem uma voz que ecoa e é rápida e isso acontece muito no espaço público. Esse espaço público tenta ser muito controlado, sempre muito esvaziado, e nós entramos exatamente nesse espaço.
As ações propostas são sempre muito atraentes – convidando as pessoas para que façam parte delas –, induzindo ao prazer do estar junto, como a experiência de comer junto, repousar junto, cantar junto, enfim, experimentar os prazeres da vida que a rotina do cotidiano pode massacrar.
O prazer da experimentação do corpo sensório motor é fundamental para percebermos o lugar de onde OPAVIVARÁ! nos fala. E quem liberou esse lugar na arte brasileira foi a ruptura pós-neoconcreta. Podemos afirmar que, em linhas gerais, o que está sendo colocado é a busca por expressar a conformação de um novo processo de subjetivação. É a vontade de expressar esse novo acontecimento que está ocorrendo com a diluição das fronteiras entre o que é interior e exterior, subjetivo e objetivo nas sociedades contemporâneas, que foi anunciado pelas experiências propostas pelos artistas da ruptura pós-neoconcreta.
Em cada um deles, esse fenômeno se expressa de maneira distinta. Lygia Clark busca a dimensão do interior, como o avesso extensivo da exterioridade (por isso essa visão mais psicanalítica); Lygia Pape, a dimensão do outro na sua relação com a trama do social, por isso essa aguda sensibilidade em relação ao espaço urbano e as teias sociais; e Hélio Oiticica, com a dimensão do prazer como o grande catalisador e como ponto de encontro e de dissolvência entre a dimensão interior e exterior. Mas, em todos eles, o corpo é o motor da obra.
OPAVIVARÁ! transita nas diferentes camadas dessas potências expressivas, buscando estabelecer outra espacialidade em que a arte surge como um instrumento possível de questionar de maneira alegre, leve e vivaz as relações interpessoais e interespaciais no contexto das grandes metrópoles. Essa foi mais uma razão que me levou a fazer o convite para participar da 24ª edição do RESPIRAÇÃO. Afinal, o material que estava sendo oferecido para OPA era o de uma casa, cuja vida havia sido retirada dela quando foi transformada em casa-museu. A pergunta é: como se relacionar com um espaço que se pretende público e, ao mesmo tempo, é da ordem do privado, na medida em que se conservam todos os cômodos de uma residência e até os objetos pessoais de sua proprietária, mas que não podem ser utilizados como tal? Do que sentiu falta o OPA e o que muitos artistas que participam do RESPIRAÇÃO também sentem é a ausência do fluxo de vida que foi interrompido, quando a casa virou museu.
Uma das formas como OPAVIVARÁ! equacionou essa questão, de maneira bastante perspicaz, foi quando optou por trazer algumas obras que já haviam sido realizadas em outros contextos (muitas vezes públicos), mas que aqui poderiam adquirir uma nova potência de existir, ao serem reintroduzidas em um ambiente de casa-museu. Apesar desse tema ser “banal” no contexto da arte atual e ser este o próprio mote do RESPIRAÇÃO, ou seja, o da recontextualização, ele deixa de sê-lo, quando se torna uma estratégia de ação, tal como é proposto pelo RESPIRAÇÃO. Em outras palavras, assumem radicalmente o propósito e o objetivo do projeto.
Por exemplo, uma obra como Pornorama sugere (pelo jogo de palavras) que o visitante vivencie a Sala Renascença com uma visão panorâmica, tal como Eva Klabin fez, ao exibir a história da arte de maneira panorâmica, agrupando-a em quatro vitrines nos cantos da sala, que contemplam, cada uma, um dos quatro continentes importantes na história das grandes navegações e do período renascentista (Europa, Ásia, África e Américas). Ao mesmo tempo, induz a ideia de que o visitante de uma casa-museu é uma espécie de voyeur da intimidade alheia. Essa percepção não poderia acontecer melhor em nenhuma outra tipologia de museu, do que numa casa-museu. Desloca o ponto de observação de uma postura ereta e frontal, como acontece nos museus tradicionais, para uma posição deitada, que permite ter uma visão sem obstáculos do conjunto da sala ou fixar seu olhar em determinados pontos específicos de observação, abrindo e fechando as cortinas do dossel. Ou, ainda, simplesmente, relaxar, reafirmando a ideia do museu como local de heterotopia da vida contemporânea, onde é possível usufruir de uma utopia espacialmente momentânea, que nos retira da aceleração do cotidiano em que vivemos.
A reedição do Sofáraokê, assim como as Espreguiçadeiras multi adquirem também outras camadas de sentido, quando recontextualizadas na Casa-Museu Eva Klabin. Costumo parafrasear Borges dizendo que esta casa-museu é a casa de uma europeia no exílio. Quando OPA traz com as Espreguiçadeiras multi o sol das praias para o interior da casa, que foi concebida para ser vivida à noite (Eva Klabin trocava o dia pela noite), remete-nos para um aspecto fundamental da vida da cidade, assim como o Sofáraokê traz de volta a boemia, tal como na época de quando Eva Klabin vivia e promovia noitadas em sua casa. Recupera também um traço importante da vida da cidade, que é a alegria irreverente do bom humor do carioca, que, infelizmente, está desaparecendo, após anos de tantos maus tratos.
No entanto, a obra mais emblemática da 24ª edição do RESPIRAÇÃO é Panis et Circenses. É quando o coletivo manifesta o sentido mais transgressor de suas ações e que melhor contribui para oxigenar a casa-museu e o RESPIRAÇÃO. Panis et Circenses é uma bolha. É um espaço criado pelo ar que é insuflado na bolha e como o pulmão ela pulsa num movimento de inspiração e expiração, tal como uma respiração. E o mais incrível é seu sentido de fina ironia porque cria um espaço onde será musealizada a vida que foi retirada da casa. Há uma inversão de valores. A mesa da Sala de Jantar, onde não acontecem mais os jantares para os quais o ambiente foi destinado, por uma questão de preservação da coleção, evitando a entrada de alimentos em área protegida do museu, com a bolha de ar receberá um salvo-conduto para que alimentos e bebidas voltem a ser consumidos no interior do museu. O ato mais primário da vida – o de alimentar-se – retorna dando vida ao museu, só que agora musealizado, em que nos tornamos objetos de apreciação da coleção que nos observa, fazendo-nos prisioneiros de nossa própria armadilha, como se tivéssemos sido capturados pela imagem do espelho.

Marcio Doctors

1 – Entrevista de OPAVIVARÁ! ao programa de Ronaldo Lemos no Canal Futura (28/11/2017).

2 – Entrevista de OPAVIVARÁ! ao programa de Ronaldo Lemos no Canal Futura (28/11/2017).

 

RESPIRAÇÃO #15 ANOS

“Talvez se pudesse dizer que certos conflitos ideológicos que animam as polêmicas de hoje em dia se desencadeiam entre os piedosos descendentes do tempo e os habitantes encarniçados do espaço”. Foucault¹.

O projeto Respiração é uma proposta de dessacralização; de permitir que a densidade do tempo histórico seja permeada pela voracidade pulsante dos “habitantes encarniçados do espaço” (Foucault) no maior dos templos da contemporaneidade, que é o museu de arte. É nele que são guardados os vestígios sagrados, que secretamente sobrevivem ao tempo, insistindo em permanecerem no espaço, como sopros de vidas que não querem ser desfeitos pelo tempo.
É no museu que guardamos o tempo e foi nesse templo que ousei há 15 anos pensar em fazer que o espaço respirasse pelos poros da epiderme sensível do tempo. Do tempo agora. Do tempo aqui. Experimentar vendo como era possível que o clamor do atual se defrontasse com o sono parestésico do tempo, que sobrevive através das ficções históricas, alimentando o devir, que se faz futuro no presente. É desse tempo (quase atemporal) que o RESPIRAÇÃO trata porque anseia pelo espaço. Quer tanto a força da presença do espaço, que ao tempo museu não restou alternativa a não ser curvar-se e resignar-se a que, um dia, aqueles vestígios de espaço do tempo contemporâneo serão vestígios de tempo histórico também.
Todos os que por aqui passaram, e fizeram o RESPIRAÇÃO, fizeram-se tempo presente. Alimentaram a vaidade desse espaço que ansiava por ser para além do sonho de Eva Klabin. Fizeram-se tapetes voadores levando-nos de um tempo a outro, reinventando o espaço, nesse templo do tempo. Ah! A nostalgia do tempo… que insiste em ser como a procura do cego com sua bengala a beira do abismo, buscando o espaço tátil do vazio. É sobre esse risco que vos falo. Sobre esse limiar inebriante do cotidiano, que palpita entre as certezas e as incertezas de sermos para além, sendo aqui. São esses os poros da epiderme tempo, que se contrai e se dilata reconhecendo-se e desconhecendo-se, fazendo o espaço respirar.
Paul Valéry foi quem matou a charada ou a cilada ou quem talvez tenha chegado mais próximo do segredo que alimenta a esfinge arte (decifra-me ou devoro-te), ao enunciar: “O mais profundo é a pele”, que é o lugar onde estamos enquanto somos: no limiar da epiderme. O fora do dentro, o dentro do fora. É nesse lugar que a arte se reinventou, quando a ruptura pós-neoconcreta (Lygia Clark | Lygia Pape| Hélio Oiticica) ousou pensar que a obra de arte, só se faz quando se realiza na impregnação vivente de quem a experimenta. Entende-se fazendo. Não há uma supremacia da transcendência monopolizada pela alma privilegiada do tempo (o artista), nem a presença monolítica e enigmática do espaço (a obra de arte), mas a pulsão ativa de quem a vivencia, abrindo os flancos da respiração, produzindo o acontecimento arte, que não é outra coisa senão a identificação no fazer: a empatia. Reconhecer-se na identificação: encontro-me enquanto faço; descubro-me ali, experimentando; ali me reconheço, reconhecendo as setas do espaço, no meu tempo. É um ato em processo, que pertence a um, nenhum e cem mil (Pirandello).
O RESPIRAÇÃO tem, na sua origem, fazer a exegese da ruptura pós-neoconcreta. O projeto busca explicitar a pulsão que existe em nós entre o dentro e o fora. Entre o Eu e o outro, quando somos também o outro do outro. Quando percebemos que o espaço fora de nós no qual vivemos não é um vazio, mas um espaço tão real e concreto quanto o nosso corpo, como se fôssemos ora o verso, ora o anverso desse espaço. É o vazio pleno (Lygia Clark). Se há um espaço interior pleno, não significa que vivemos, em contraposição, em um espaço exterior vazio. O espaço no qual vivemos, pelo qual somos atraídos para fora de nós mesmos, no qual decorre precisamente a erosão de nossa vida, de nosso tempo, de nossa história, esse espaço que nos corrói e nos sulca é também em si mesmo um espaço heterogêneo ². É desse e nesse espaço heterogêneo, que o RESPIRAÇÃO quis fazer-se real. O projeto nasce do desejo de provocar a colisão de dois espaços, que desencadeasse em um; a transparência do tempo do outro. Um outro museu possível dentro de um museu, fazendo com que a irredutibilidade de um brilhasse ao encontrar-se com a irredutibilidade do outro.

[1] Foucault, M. 2013. Outros espaços. In: Barros da Mota, M. (org.). Ditos e escritos III. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013, p. 142.

[2] Ibid., p. 414

Fotos: Mario Grisolli