Chelpa
Ferro


ESTABILIDADE PROVISÓRIA

Projeto Respiração
3ª edição
30/04 a 29/05/2005

REVELAR PELO CONTRASTE

O Projeto Respiração tem por objetivo uma experiência inédita, que é a de confrontar, em um mesmo espaço, a arte consagrada do passado e a arte contemporânea. Propõe reproduzir a mesma estratégia da colecionadora Eva Klabin, que foi a de reunir, em sua residência, obras que pertencem a diferentes períodos da história da arte e que são provenientes das mais diferentes latitudes. A aparente homogeneidade que a decoração e o reconhecimento da história da arte conferem ao ambiente da casa-museu de Eva Klabin é rompida pelo intenso contraste que se estabelece entre a arte da atualidade e a arte clássica dos mestres do passado, constituindo o diferencial deste projeto.

Este contraste tem a função pedagógica de evidenciar uma questão da maior importância, que ajuda a elucidar a dificuldade que existe em compreender a arte contemporânea: enquanto a arte já consagrada está preocupada com os fins, a arte contemporânea está preocupada com os meios. Enquanto, antes, o que se desejava era um objeto acabado (uma pintura ou uma escultura, por exemplo), hoje, o que se pretende é uma situação transitória, instável, provisória e em processo. As obras produzidas nesta situação respondem a uma ansiedade do contemporâneo que é a incerteza.

Ir de encontro ao estabelecido não deve ser confundido com uma atitude levianamente demolidora, mas com um anseio de refundar – não no sentido de reiniciar do zero como a Arte Moderna -, mas de tornar mais profundo o que incomoda, para explicitá-lo como dado cognitivo da realidade. E o que incomoda é que estamos vivendo uma mudança de sistema de pensamento, que está migrando da palavra para a imagem, gerando incertezas. O mundo hoje é pura imagem. As obras reunidas por Eva Klabin estão inseridas na discursividade da representação, isto é, a imagem reproduzindo a mesma estrutura de mediação da palavra. O que os artistas convidados pelo Projeto Respiração oferecem é o “ensaio” da imagem como fim em si. Não há representação. Este fato, por si só, não constitui nenhuma novidade. A partir da segunda metade do século XX a arte que interessa trata de experiências em torno dessa questão. O que há de surpreendente é permitir a concomitância dessas duas formas discursivas, fazendo gerar o paradoxo, como instância reflexiva.

A proposta do Chelpa Ferro insere-se com exatidão no pensamento da curadoria. Estabilidade Provisória é uma quase-ilustração dessa idéia. O estabelecido, o consagrado, estremece diante do lúdico. A desarrumação gerada em um ambiente tão estruturado, onde a história da arte tem a função de criar um cenário estável para a existência de Eva Klabin, desencadeia uma outra estabilidade – de passagem -, mas que tem a função de nos questionar a respeito do lugar das coisas. A incerteza aqui torna-se um valor em aberto: o mesmo valor que tem guiado as ações em nossa sociedade. A cada momento, a todo o momento, tudo pode mudar: ou pela violência, ou pelo acidente, ou pela rapidez com que a informação antecipa – pelo temor- uma situação futura, ou pela ação cada vez mais violenta da natureza como conseqüência dos desequilíbrios ambientais gerados pelo homem. Enfim, a busca de uma estabilidade / instabilidade  que denuncia a situação precária de limites em que vivemos é o grande trunfo da instalação do Chelpa Ferro, que encontra, no ambiente da casa-museu de Eva Klabin, o espaço ideal para revelar o incômodo dessa situação, a incerteza , o precário e o transitório,  através do contraste.

Marcio Doctors

Site do artista:

http://www.chelpaferro.com.br/chelpaferro/works/view/30

Fotografia: Fabio Ghivelder

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