Peça do mês

Ribera | São Jerênimo penitente

  • José Ribera (1590 - 1562)
  • São Jerônimo penitente
  • Nápoles, 1620 - 1630
  • óleo sobre tela, 96 x 83 cm
A OBRA

Ocupando lugar de destaque numa das paredes do hall barroco do segundo andar, São Jerônimo Penitente, pintura atribuída à escola de José Ribera, posicionada sobre tabernáculo barroco, forma conjunto que sugere um oratório do século XVII.

Esta tela foi adquirida por Eva Klabin em Barcelona, em 29 de julho de 1958, tendo vindo acompanhada de expertise do técnico em arte e ex-comissário do Patrimônio Artístico Nacional de Espanha, Dom Luis Monreal y Tejada, confirmando ser trabalho correspondente à escola de José Ribera e pintura autêntica do século XVII.

São Jerônimo está representado de busto, virado em ¾, com o torso nu, deixando à mostra a ossatura descarnada. A testa larga, com entradas pronunciadas, realça o rosto de traços marcantes, com bigode e barba densa, olhar fixo voltado para o alto, em busca da transcendência. Do lado direito do quadro, um manto vermelho envolve parte de seu corpo. Sobre o manto, com as duas mãos, o santo segura uma caveira, um dos seus mais conhecidos atributos.  

RESTAURAÇÃO

Em 2004, algumas pinturas da coleção foram restauradas pelos profissionais do ateliê Edson Motta, com patrocínio da Fundação Vitae. São Jerônimo Penitente estava entre elas, em estado precário de conservação, recoberto por um verniz espesso e amarelecido, que escondia grandes lacunas preenchidas por massa avermelhada. Um manto da mesma cor foi pintado no canto inferior direito do quadro, cobrindo parte do corpo do santo. À medida que os trabalhos de limpeza avançaram, os restauradores foram surpreendidos com a aparição de uma caveira entre as mãos de São Jerônimo - revelando a representação original - que, por um truque, fora encoberta pelo manto avermelhado. Na imagem acima podemos ver a pintura antes e depois da restauração.


O PINTOR


José Ribera, figura fundamental da arte do século XVII, nasceu em Játiva, Espanha, em 1590. Com 18 anos foi estudar em Roma, onde ganhou o apelido de El Españoleto. Rafael, Miguelangelo e Caravaggio foram objeto de seu estudo e devoção. Acolhido por um cardeal, passou uma temporada em sua residência, mas preferindo a liberdade, fugiu de seu protetor, refugiando-se entre mendigos, que lhe serviram de inspiração para sua imensa galeria de tipos esfarrapados.

Em 1617, transferiu-se para Nápoles, vice-reinado do sul, na época, moderna cidade européia e mediterrânea. Descoberto por um negociante de quadros, que nele reconheceu  um artista do mais alto valor, Ribera  tornou-se o mais célebre dos pintores de Nápoles. Em 1630, foi recebido em Roma, com todas as honrarias, como membro da Academia de São Lucas. Apesar de viver na Itália, sua arte esteve sempre ligada à Espanha, a ponto de os críticos italianos terem visto em Ribera e Velázquez os dois expoentes máximos da criação, que trouxeram novos rumos a uma arte que seguia olhando para o Classicismo. Recebeu influência das técnicas introduzidas por Caravaggio, acolhendo, também, os modelos flamengos. Morreu em Nápoles, em 1652.

As pinturas de José Ribera, digno representante do período Barroco - arte da Contra Reforma -, revelam um pintor comprometido com as inquietações espirituais de uma época, mas também, com as inquietações humanas de seus personagens.


O PERSONAGEM


Em companhia de Santo Agostinho, São Gregório e Santo Ambrósio, São Jerônimo foi um dos quatro grandes doutores da igreja latina. Sua festa é celebrada no dia 30 de setembro.

Nasceu em 347, na Itália, na região do Vêneto. Foi educado em Roma, aluno do famoso gramático Donato. Como Santo Agostinho, era poliglota, tendo aprendido o grego e o hebreu. Batizado aos 19 anos, partiu, em seguida, para uma peregrinação à Terra Santa, retirando-se, depois, para o deserto da Síria, onde passou a levar uma vida de eremita. De volta a Roma, em 382, Jerônimo tornou-se colaborador do papa Damásio, que o encarregou de revisar a tradução latina das Sagradas Escrituras a partir do original hebreu e da Septuaginta - a versão grega da Bíblia. Depois da morte do papa, voltou à Palestina, fixando-se em Belém, em 386, onde acabou sua tradução, também chamada Vulgata. Nessa cidade morreu em 420. 

O culto de São Jerônimo foi difundido na França, Itália e Espanha. Na Renascença, elegeram-no padroeiro dos humanistas e dos tradutores, por causa de sua versão latina da Bíblia. Como Santo Agostinho, foi fundador de uma ordem monástica, a Ordem dos Jerônimos, bastante difundida na Península Ibérica, cujo mosteiro, em Lisboa, às margens do Tejo, permanece como exemplo precioso do estilo manuelino, que integra elementos do gótico tardio e do renascimento, mesclados a uma simbologia naturalista.


Heloisa Fernandes Carvalho